quinta-feira, 12 de junho de 2008

Santana do Acaraú

Nunca dormi cedo. Na infância, em vez do sono, optei por sonhar acordado ao lado de Machado de Assis, Castro Alves, Victor Hugo, Guimarães Rosa, José de Alencar, Jorge Amado, Manuel Bandeira, Euclides da Cunha, da Enciclopédia Delta Larrousse, muitas revistas em quadrinhos e também de mulher pelada, estas últimas sub-repticiamente surrupiadas dos adultos ou emprestadas por amigos da escola.
Apartado de minha cidade natal, passei a adolescência em Santana do Acaraú. Tomei por hábito vagar pelas ruas desertas da cidade, até altas horas. Tornei-me amigo dos padeiros, dos vigias de praças, dos vagabundos e de alguns notívagos de ocasião, vez por outra acostados a mim ali pela esquina da malandragem ou nos bancos das praças desertas. Paguei um alto preço: fui acusado de principal suspeito do assassinato da louca “Loura”, revistado pelo delegado, pelo Mundola e pelo Célio da Marinês (até hoje não entendi o que diabos o Célio estava fazendo naquela “diligência”); tornei-me o terror dos pais de família santanenses, que ameaçavam suas filhas de deportação pra Fortaleza, caso elas se aproximassem de mim nas férias de julho; virei assombração noturna e referência às mães de adolescentes, sempre recomendando aos seus filhos que retornassem cedo pra casa, em vez de ficar vadiando com o “filho do Marcelo do Gibraltar”. De volta para casa, sob o chamado dos galos nos quintais, lá estava ele, o Marcelo do Gibraltar, cara emburrada (com toda razão, diga-se de passagem), cigarro na mão e, quase sempre, com o anúncio de que um dos filhos do Zequinha Coletor havia passado no vestibular para medicina. Talvez por isso, passei a suspeitar que o Zequinha Coletor tivesse mais de duzentos filhos e fosse dono de uma faculdade de medicina, porque todo dia meu pai me dava a informação de que um filho do “Seu” Zequinha havia passado no vestibular pra medicina, enquanto eu continuava a vagabundear sem destino pelas ruas vazias da cidade. Até de baitola fui acusado, embora em toda minha existência eu jamais tivesse coragem, o altruísmo a grandeza e a vontade de liberar meu fiofó pra seu ninguém.
Foi um preço bem pago. Nessas madrugadas, repatriei meu coração. As ruas de Santana, o cheiro do Acaraú de madrugada, os sons de sua correnteza, do sino da Matriz e das gargalhadas do Rochinha após uma piada do Gilson do Zé Osmar petrificaram em meu peito. Santana foi e é minha. Eu sou o que me constitui, e não há nada mais forte em mim do que a amizade incondicional e fraterna do Savinho; as imagens e lembranças de meu irmão correndo pelas ruas, transformando um talo de carnaúba no mais valente e indomável dos alazões, trazendo na cintura maços de cigarro vazios e dobrados como dinheiro, os quais ele colecionava, guardava e valorizava como se aquilo representasse o lastro financeiro do Tesouro norte-americano. O que sou hoje senão a lembrança do brilho cristalino das retinas da filha da Chiquita, com quem dancei “pinando” nos mela-cuecas do “Clube dos Caboclos”? Os calos de violão que hoje trago em meus dedos não começaram a nascer nos primeiros acordes que improvisei, imitando o Marcelo do Zé Osmar, em noites de serenata? Justamente quando eu começava a desconfiar, foi em Santana que Deus resolver me provar que existia, sim, e tinha muito bom gosto: um mundo de mulher bonita... o Mirim, o Serrote da Rola, o banho de rio nas fazendas do João Américo e do Dr. Aldo, a pescaria no açude da Água Salgada... o balanço de rede na barraca do Perigoso, ao som de Agnaldo Timóteo, Roberto Carlos, Dalva de Oliveira, Odair José e Moacir Franco e ao sabor de serrana com farofa de piaba frita.
É esta a Santana que trago comigo. Em mim, as ruas de Santana ainda tremem ao som das batucadas do Funil; seu povo festeja os brilhos e as cores dos desfiles de carnaval de outros tempos; os olhos de sua gente ainda são os mesmos escandalizados ao verem pela primeira vez uma mulher desfilando em carro alegórico com os peitões de fora (tratava-se de uma puta de Sobral, contratada por nós a peso de ouro, coisa de uns vinte merréis no dinheiro de hoje). Nota triste: foi num desses carnavais que faleceu nosso mascote, um macaco “soin” criado pelo Neguinho do João Brás. Causa mortis, diagnosticada pelo Tuí: cirrose hepática. Nunca mais esqueci meu discurso emocionado, no enterro de nosso mascote e mártir soin: “Vai, velho amigo. Carregaste em vida a triste sina de comprovar aos incrédulos, em teu martírio etílico, a velha máxima: dize-me com quem andas e te direi quem és!”. Netim Bodim debulhou-se em lágrimas... Mas, deixemos de lembranças tristes, pois foi também ali que o Funil comemorou o carnaval de 88, celebrando o fim da escravidão com os negros do Alto da Liberdade e do outro lado do rio. Botamos cem negros nas ruas (noventa e nove contratados e mais o do João Brás, pra fechar a conta do centenário) celebrando conosco a liberdade. Democracia, liberdade, fraternidade, felicidade... Evoé, Funil! Éramos felizes e sabíamos.
Nesta manhã de quarta-feira, recebo e-mail de minha irmã: “Santana saiu no Fantástico”. Pensei comigo: já não era hora. Decepção: não era a minha Santana. Surpresa: minha avó declarando, em cadeia nacional, que, tirando uma ou outra mão de cal nas paredes, o amanhã de seus dias é sempre ontem. O que mais me surpreendeu, no entanto, é que a cidade retratada não era a mesma Santana idealizada e sonhada por um jovem que em certo lugar do passado um dia dividiu comigo, na esquina da malandragem, os sonhos e as expectativas por uma cidade melhor, por um povo mais instruído, menos marginalizado. Jamais pensei que o destino um dia me permitiria revê-lo em situação tão vexatória, tão vergonhosa, ressabiado diante das câmeras do Fantástico, tentando justificar o inexplicável.
Antes tivesse eu ignorado o diabo desse e-mail de minha irmã e jamais assistido a tal matéria do Fantástico. Como doeu ver tudo aquilo, meu Deus! Dilacera a alma a imagem de crianças inocentes assistindo às aulas, comprimidas umas sobre as outras, num cubículo ordinário e mais decadente que os quartos do velho Caneco Amassado, em seus dias mais minguados.
É impossível passar incólume ao depoimento daquela professora, que com certeza recebe uma miséria de salário, persistindo na sua missão impossível de ensinar crianças da primeira à quarta série ao mesmo tempo e numa única sala de aula. Não há como conter a emoção diante do brilho no olhar de cada um daqueles corações tão puros, atentos a cada gesto e palavra da dedicada, abnegada e maltrapilha professora. Em meio à reportagem, confesso que chorei. Como há muito não chorava vi e revi a imagem da mãozinha de uma menina, talvez da idade de minha filha mais nova, ao rabiscar as primeiras letras em seu caderno. Chorei de piedade e de revolta, mas também de alegria pelo sopro de esperança que representam aquele lápis e aquele papel, manejados por mãos ainda (apenas ainda) frágeis e inocentes.
Os responsáveis por toda a sujeira denunciada pelo Fantástico também sabem disso. Talvez por isso mesmo resolveram dilapidar as verbas destinadas à educação. Talvez por isso, tantos livros jogados no lixo. Por ironia, livros de História. Ironia, mas não acaso: é precisamente nos livros de História que encontramos a lição de que os maiores tiranos e corruptos da humanidade também jogaram livros e gente no lixo, massacraram professores, artistas e intelectuais. Antes de jogar os livros de História no lixo, os calhordas deveriam ter lido que todos os corruptos e tiranos um dia sucumbiram justamente pelas mãos daqueles que massacraram, espoliaram, humilharam. Mãos simples, como as daqueles trabalhadores de Santana que desistiram de esperar em vão e construíram em mutirão uma nova escola para seus filhos, ou ainda como aquela frágil mãozinha que empunhava um lápis nas imagens da matéria.
Não consegui ler as palavras que aquela menina tentava rabiscar, mas não posso nem me permito deixar de crer que fossem as palavras esperança e futuro. Por isso mesmo, gostaria de tranqüilizar, com este texto, minha velha e cansada avó.
Se avexe não, dona Altamira: o futuro nem sempre é ontem. Não há mão de cal que apague a História.

4 comentários:

Paulo Roberto disse...

Marcos peço a sua autorização para divulgar seu texto no meu Blog. Meu nome é Paulo Roberto e moro em Santana do Acaraú. Confesso que estou indignado com tudo isso q está acontecendo em nossa cidade, e seu texto encheu meus olhos de lágrimas.

Vc escreve muito bem, realmente os monstros da literatura eram seus companheiros.

Marcos Vilhena disse...

À vontade, Paulo. Este texto não é mais meu: é nosso.
Grande abraço

FF disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
FF disse...

Parabéns pelo texto, conseguiu me fazer pensar, tentar imaginar como suas lembranças de nossa terra são boas, e mostraram que você foi um sonhador, e que por conta de alguns que sonharam apenas com o DINHEIRO acabou por não concretizar, parabéns é bom saber que em santana temos pessoas como você, que através de palavras brandas conseguem dizer tanto, confesso ter me arrepiado em certos momentos... Mas bola pra frente, um dia tem que melhorar!